quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Médias ou Mediações? A Leitura e a Escrita Como Instrumentos Libertários - Michell da Silva

Médias ou Mediações? A Leitura e a Escrita Como Instrumentos Libertários
Michell da Silva*

O universo da leitura e da escrita vem passando por transformações imensuráveis, seja pela velocidade da informação, pela maior acessibilidade aos meios de comunicação, pela ampliação de espaços de criação e pelo grande caos sociocultural que estamos presenciando dentro das megalópoles.
O processo acelerado das informações pode muitas vezes ser maléfico ao processo de compreensão dos aprendizes, não porque os mesmos não sejam capazes de assimilar as informações, mas a orientação para que os mesmos desenvolvam autonomia e autocrítica para fazerem suas escolhas e conseguirem filtrar ou até mesmo peneirar o que vão ou não ler é essencial para que se freie quando preciso a quantidade de informações que recebem cotidianamente.
A Literatura vem configura-se como ação potente para que crianças, jovens e adultos passem a procurar as cores de um mundo que muitas vezes por inúmeras razões permanece incolor. Despertar algo que existe dentro de cada aprendiz, mas que ainda não veio ao mundo é uma das metas do ateliê de Literatura deste educador que vos escreve.
Não consideramos a leitura e a escrita segregadas de outras manifestações culturais, acreditamos que outras linguagens artísticas se entrelaçam neste processo. A leitura e a escrita por muito tempo foram artes negadas ao povo pobre, aqui estamos falando de anos e mais anos de negação, porém não podemos nos iludir que está negação está findada, pois o último senso feito pelo IBGE em 2010 aponta aproximadamente 18 milhões de pessoas que não sabem ler nem escrever no Brasil. Número alarmante para um país que deseja ser desenvolvido. As condições econômicas interferem e muito neste processo, apesar da pesquisa nos mostrar que este número já foi maior. Não podemos nos contentar com este mínimo avanço. Com isso pretendemos proporcionar aos aprendizes leituras e escritas de universos diferentes da escola de má qualidade, seja ela pública ou particular e leituras que vão além das palavras grafadas nos livros e em outros suportes, para que quando necessitarmos do domínio das mesmas sejamos capazes de ultrapassar as barreiras visíveis e invisíveis da alfabetização. Tudo isso ainda sem expormos a importância do ateliê de Literatura para o processo criativo. Vejamos o quadro com as informações do último senso do IBGE.

A arte não se limita ao academicismo em que muitas ocasiões pretende legitimá-la, nem se limita ao total desprendimento destes templos. Mensurar ou querer por imposição colocar aos aprendizes o que é ou que não é arte, é o mesmo que não poder comer a sopa por falta de prato, ou seja, no ateliê de Literatura da Fábrica de Cultura Vila Nova Cachoeirinha o aprendiz é quem estabelece seus olhares para o que considera ou não arte. Oauxílio neste processo de criação parte de interrogações e reflexões compartilhadas pelo educador, no sentido que as relações sociais vão se dando nas vias de mãos-duplas e nas trocas destas reflexões.
À pergunta “O que é arte?”muitos sábios já propuseram suas respostas, mas nunca nenhuma delas conseguiu satisfazer a todos. A arte é uma dessas coisas que, como o ar ou o solo, estão por toda nossa volta, mas que raramente nos detemos para considerar. Pois a arte não é apenas algo que encontramos nos museus e nas galerias de arte, ou em antigas cidades como Florença e Roma, a arte, seja lá como a definimos, está presente em tudo que fazemos para satisfazer nossos sentidos. Logo veremos que existe uma espécie de hierarquia em arte, e que muitas qualidades se fazem necessárias para que uma obra de arte seja da mais alta categoria. Mas não existe obra de arte genuína que não atraia, basicamente, os nossos sentidos – nossos órgãos físicos de percepção - , e quando perguntamos “O que é arte?” estamos, na verdade, perguntando qual é a qualidade ou peculiaridade de uma obra de arte que atrai nosso sentido.” (READ, 2013, p.16).

O processo criativo no ateliê de Literatura parte da realidade expressa no entorno da Fábrica de Cultura e dos imaginários que cada aprendiz traz consigo. Um dos papeis do educador que aqui vos escreve é o de apresentar algumas experiências vivenciadas nos universos da leitura e da escrita para que os aprendizes possam fazer relações com seus imaginários e ampliá-los. A vulnerabilidade juvenil do entorno da Fábrica não pode nunca se restringir a fatores única e exclusivamente econômicos, pois a vulnerabilidade social não pode ser sinônimo de incapacidade criativa ou algo parecido. Enquanto o mercado editorial luta para que a população leia cada vez mais e aumente os lucros do mesmo, nós seguimos na contramão desta lógica, lutando para que os lucros sejam intelectuais e potentes que vão além do capital econômico e sim que haja uma grande ampliação do capital cultural.
A construção do conhecimento nos exige irmos milhas e milhas além dos quadrados dos ateliês. As estruturas arquitetônicas não suprem a vida, a troca, a socialização, os impasses, o respeito mútuo e diversas outras formas de contribuições para a vida de cada aprendiz. Na presença de papel e caneta, de teclados e monitores, de celulares e tabletes podemos sim associar estas tecnologias ao graveto e a terra batida, ao carvão e o asfalto, a cartolina e a canetinha e assim por diante. Nesta viagem apresentaremos a importância da construção de leitores e de leitores construtores tomando como referência algumas reflexões de Michèle Petit
O objeto de minhas pesquisas não é tanto como podemos construir leitores, para retomar essa expressão, mas principalmente como a leitura pode ajudar as pessoas a se construírem, a se descobrirem, a se tornarem um pouco mais autoras de suas vidas, sujeitos de seus destinos, mesmo quando se encontram em contextos sociais desfavorecidos. Interessa-me particularmente descrever como apropriando-se de textos que vocês editam, ou fragmentos de textos, crianças e adolescentes, mulheres e homens elaboram um espaço de liberdade a partir do qual podem dar sentido a suas vidas, e encontrar, ou voltar a encontrar, a energia para escapar dos impasses nos quais eles se sentem encurralados.” (PETIT, 2013, p.31).

                Não há como quantificar os valores que a leitura e a escrita trazem para as crianças, jovens e adultos com exatidão. Enquanto houver esta não exatidão é que os passos adiante poderão ser dados, pois limitar o que estas pessoas devem ou não ler é engessar o imaginário doutrinando a um único modo de pensar, isto é, não precisamos de exatidão e quantificação e sim de expansão de horizontes infinitos para que o imaginário possa transbordar os limites impostos por aqueles que se julgam guardiões dos saberes.
            As transformações que ocorrem nos aprendizes quando despertam o interesse pela leitura e pela escrita são mágicas. Muitos vivem em ambientes de negação, seja na família, na escola, na sociedade, quando compreendem que o ateliê de Literatura é um lugar para exercitar a cidadania e ser livre, instantaneamente tornam-se mais questionadores e curiosos. Mas, procuramos deixar nítido que não é somente a compreensão que liberta os imaginários, e sim o sentir, os atos de apropriação do conhecimento e também do espaço público.
            A Literatura por si só, assim como o livro por si só não é garantia de apropriação ou liberdade dos aprendizes e não aprendizes. Atualmente ouvimos e lemos muito sobre a famosa mediação de leitura, ou a produção de textos, estes termos carregam coerência em determinados contextos, em outros não fazem o mesmo sentido ou não surtem o mesmo efeito. No ateliê de Literatura de Fábrica de Cultura Vila Nova Cachoeirinha, com o passar do tempo, preferimos por meio de nossas observações, ao invés de trabalharmos com a mediação de leitura, trabalharmos com a apresentação da leitura e, ao invés da produção de textos, trabalharmos com as criações de texto. As práticas são próximas, mas não iguais, pois consideramos que a mediação muitas vezes pode retrair o aprendiz e o mesmo não ser livre para fazer suas escolhas, já em relação à produção preferimos optar pela criação, pois o ato de produzir pode remeter a série, a massa, e dar continuidade a termos explorados pelo mundo capitalista. Por isso a criação de textos amplia a margem para diferentes tipos de tempos, principalmente o tempo de apreciação de cada aprendiz.
            Sendo assim
Dúbia, a literatura provoca no leitor um efeito duplo: aciona sua fantasia, colocando frente a frente dois imaginários e dois tipos de vivência interior; mas suscita um posicionamento intelectual, uma vez que o mundo representado no texto, mesmo afastado no tempo ou diferenciado enquanto invenção produz uma mobilidade de reconhecimento em quem lê. Nesse sentido, o texto literário introduz um universo que, por mais distanciado do cotidiano, leva o leitor a refletir sobre sua rotina e incorporar novas experiências.
A leitura do texto literário constitui uma atividade sintetizadora, na medida em que permite ao individuo penetrar o âmbito da alteridade, sem perder de vista sua subjetividade e história. O leitor não esquece suas próprias dimensões, mas expande as fronteiras do conhecido, que absorve através da imaginação mas decifra por meio do intelecto. Por isso trata-se também de uma atividade bastante completa, raramente substituída por outra, mesmo as de ordem existencial.” (ZILBERMAN, 2008, p.23).

Ao apresentar os livros, as imagens e os universos para os aprendizes são de extrema importância que o educador tente cativar e despertar a curiosidade dos mesmos através de uma mediação temporária e não por uma média constante. Fazer média ao apresentar a leitura é o mesmo que construir uma guilhotina que esteja pronta para decepar o processo criativo. A mediação temporária é interessante pelo fato de ser uma espécie de ponte entre o que está sendo apresentado para leitura e na leitura e, posteriormente aos desdobramentos da escrita, só que esta ponte não pode e deve ser única, por isso mediação temporária, em determinado período o educador faz a ponte e em outros períodos os aprendizes constroem suas pontes e atravessam.
Em meio a estes processos criativos nos deparamos com crianças, jovens e adultos não alfabetizados. Acreditamos que a alfabetização é essencial e ideal para estes processos, porém percebemos que as imensas lacunas entre o ideal e o real devam ser preenchidas de alguma maneira, e de preferência com práticas que estimulem estas pessoas compreenderem os códigos alfabéticos para terem oportunidades iguais de viajarem nos universos das letras e sentirem onde eles podem as levar.
As caminhadas nestes terrenos não são fáceis, contudo o educador que vos escreve não pode simplesmente fazer médias no que diz respeito às apresentações das leituras. Novamente a mediação provisória entra com força total, pois neste período de não alfabetização o mediador tem como grande desafio transpor aqueles códigos de maneira agradável e impactante aos ouvintes, neste caso, os não alfabetizados

“Não é necessário esperar o longo caminho da alfabetização para conhecer as histórias guardadas nas estantes das bibliotecas. A criança que se beneficia do saber dizer de um mediador pode escutar textos escritos. Essa habilidade de comunicar um texto pertence a pessoas letradas que podem tratar os textos gráficos graças à sua capacidade de ler”. (BAJARD, 2014, p.93).

A liberdade de expressão através das palavras é uma das pontas das flechas lançadas aos aprendizes no ateliê de Literatura. O ato de escrever que seja vivo e transparente e que dialogue com as relações sociais construídas dentro e fora da Fábrica de Cultura é de grande valia no trajeto percorrido para que as práticas libertárias sejam compartilhadas.“Quanto mais consciente faça a sua História, tanto mais o povo perceberá, com lucidez, as dificuldades que tem a enfrentar, no domínio econômico, social e cultural, no processo permanente da sua libertação.” (FREIRE, 2009, p.40-41).
Ficam aqui expostas partes das reflexões trazidas pelos aprendizes e pelas experiências deste educador que vos escreve. No olho do furacão e entre redemoinhos que são constantes entre nós que nos dispomos a pensar nas lacunas, nas extremidades, nos distanciamentos, nas aproximações entre o real e o ideal, entre as médias e as mediações, entre as produções e as criações, fazendo o possível para alcançarmos juntos a arte de transbordar o imaginário, fica neste breve texto uma força para que continuemos rumando para oportunidades mais igualitárias nos universos da leitura e da escrita como instrumentos libertários.


Referências Bibliográficas

BAJARD, Élie. Da escuta de textos à leitura. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2014. 128 p. (Questões da nossa época).


FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: Em três artigos que se completam. 50. ed. São Paulo: Cortez, 2009. 87 p. (Questões da nossa época).


PETIT, Michèle. Leituras: do espaço íntimo ao espaço público. São Paulo: Editora 34, 2013. 165 p.


READ, Hebert. A educação pela arte. 2. ed. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2013. 366 p. (Mundo da arte).


ZILBERMAN, Regina; SILVA, Ezequiel Theodoro da.Literatura e pedagogia: Ponto & Contraponto. 2. ed. Campinas: Global, 2008. 72 p.



*É estudante de Pedagogia da Faculdade de Educação - FEUSP da Universidade de São Paulo, é Técnico Em Biblioteconomia formado pelo SENAC - Centro de Gestão e Tecnologia Educacional (2002). Atualmente faz parte do Coletivo Cultural Poesia Na Brasa e, é Educador de Literatura na "Fábricas de Cultura do Estado de São Paulo", onde desenvolve diversas atividades culturais e educacionais. Tem experiência em biblioteconomia, cultura, informação e educação.

Texto apresentado após a Comunicação Oral no 1º Seminário Interno das Fábricas de Cultura. 


terça-feira, 18 de novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

ARTEIRO !


Se até Leandro “Lê Arte”, porque eu não iria fazer as minhas leituras?
Na Arte Popular do verso que me leva às alturas
Observo escritor ziKa com K maiúsculo
E eu Jovem Escritor Paulista aloprado de minúsculo
Sentindo a tinta que entope minha narina
Ao sol de 40 graus misturando as cores nos muros da esquina
Já disse que não sou Marisa, mas estou com um Monte de ideia
Atravessando bico-sujo imerso no resultado da diarreia
Radar detecta na corrida maluca o bando de Dick Vigarista
No meu GPS não tem endereço pra burguês nem racista
Antes da tela veio a parede, antes da parede veio o papel
Assim surgiu o Chellmí e para as formalidades continua existindo o Michell
Ouvidos antenados com olhos bem atentos
Focado nos processos e ligeiro com os procedimentos
Flagro Adolf Hitler com a camisa de Guevara com fotografia no instagram
Mal sabe ele que sou combatente na capital SP/Vietnã
Na rede social que transforma formiga em leão
Prossigo quebrando teclados quando descobrem que na rua é que me faço monstrão
Que os versos das minhas latas e as latas que me trazem os versos
Continuem em sintonia pra quebrar os queixos dos mais perversos
No sapatinho seguirei no mundão, de leste para oeste, de norte para o sul
Essa é pra você “Artistão” de prepotências tão reprisadas como aquele filme da Lagoa Azul.

Chellmí – Jovem Escritor Paulista – 28.10.2014 – 23:26